viernes, 10 de julio de 2015

República do Kampuchea Democrática: um resumo histórico


Publicado originalmente na revista Nova Cultura, escrito por Clovis Manfrini Souto Calado. 
República Democrática do Kampuchea: um resumo histórico
Em 1989, no auge da derrocada dos países socialistas que – erradamente – caminhavam na estrada esburacada do revisionismo, as tropas do Vietnã finalizam a ocupação dez anos antes e que pôs fim a uma das experiências mais independentes e radicais da construção do socialismo: a República Democrática do Kampuchea.
 
O Camboja (Kampuchea)

No primeiro século até o século V de nossa Era, o Camboja (Kampuchea na língua khmer) fazia parte do grande Estado de Fu-nan. A partir do século VI o reino de Chen-la (conhecido com o a terra dos cambuja) sucede o antigo Estado. O reino de Angkor surge por volta do ano 800 e existirá até 1450. Durante o desenvolvimento desse período Angkor várias guerras por disputas territoriais existiram. Ao norte com o reino de Sião (atual Tailândia) e ao sul com o Vietnã. Essas guerras foram mais cruentas com a chegada do século XIX e a entrada de portugueses e holandeses nos conflitos. As disputas coloniais estavam em jogo.
O estágio colonial francês tem início em 1863, graças a acordos do monarca cambojano Norodom com o Governo da França. Em 1887, o Camboja passa da condição de protetorado da França para ser membro da União Indochina (uma grande colônia francesa que abrigava, além do Camboja, Vietnã, Laos e Tailândia). A independência do Camboja se dará somente em 1953 depois de décadas de reivindicações nacionalistas. Norodom Sihanouk abdica o trono em favor do pai (Norodom Suramarit) e funda o Partido Sangkum (nacionalista). O Sangkum elege toda a bancada parlamentar nas primeiras eleições pós-independência e – após a morte do pai (em 1960), Sihanouk se torna chefe de Estado e de Governo (sem reivindicar o título de rei). Sihanouk é derrubado por um Golpe patrocinado pelos Estados Unidos em 1970.
Nas lutas pela independência, o Partido Revolucionário do Povo Khmer (comunista), que surge no começo da década de 1950 após a divisão do Partido Comunista da Indochina em partidos regionais (Camboja, Vietnã e Laos), é o que mais se destaca. Nas eleições de 1955, já que estava clandestino o PRPK, os comunistas cambojanos fundam uma legenda legal (Krom Pracheachon) para participar do processo. O partido recebe 4% dos votos, embora não consiga nenhuma cadeira no parlamento todo dominado pelo Sangkum. Perseguidos por Sihanouk (que apelidou de forma pejorativa o povo khmer que lutava bravamente de “khmer vermelho”) o PRPK racha logo após as eleições. Dois grupos, o “urbano” (liderado por Tou Samouth) e o “rural” (liderado por Sieu Heng), passam a promover conflitos internos. A tendência “urbana” (apoiada pelo Partido Comunista do Vietnã) defendia a posição de apoio ao que chamavam de “príncipe progressista” (Sihanouk); a “rural”, ao contrário, adotava a posição de guerra popular para derrotar o que chamavam de “senhor feudal” o mesmo príncipe. O líder Sieu Heng passa para o lado inimigo e colabora com a repressão, destruindo cerca de 90% da organização no campo. Apenas algumas centenas de comunistas ligados a facção “rural” permanecem atuando na capital Phnom Penh.
Um grupo de estudantes comunistas cambojanos, que viviam na França, já se organizavam. Esses comunistas ainda não tinham muitas ligações com o confuso PRPK e em setembro de 1960 (após anos de clandestinidade) organizaram um Congresso e fundaram o Partido dos Trabalhadores do Kampuchea. Dos 21 líderes que participaram desse Congresso de formação, 14 faziam parte da antiga facção “rural” e eram profundamente antivietnamitas. Formou-se um Comitê Central e Tou Samouth torna-se secretário-geral. Pol Pot (fora um dos líderes estudantis que formaram o Círculo Marxista na França) torna-se o terceiro nome no Partido e fazia parte da linha “rural”. Em 1962, após o assassinato de Samouth pelo Governo cambojano, Pol Pot assume o poder e é eleito secretário-geral durante o Segundo Congresso do PTK.
O novo dirigente deixa a capital e conduz cerca de 100 militantes para o campo, na Província de Ratanakiri (noroeste do país), formando uma base insurgente. A maioria dos dirigentes do PTK desertou antes e foram presos pelo regime de Sihanouk. Em 1965, Pol Pot viaja e passa o ano recebendo formação no Vietnã do Norte (socialista) e na China. O Governo chinês mantinha boas relações com Sihanouk, no entanto fez segredo dessa “visita” de Pot para treinamentos. Entre 1967 tem início a guerra popular comandada pelo ainda PTK, com poucos êxitos. A escalada nacional de guerra civil se daria somente a partir de 1968. As forças guerrilheiras eram denominadas de Exército Revolucionário do Kampuchea (ERK). Em 1971 o PTK muda de nome e surge o Partido Comunista do Kampuchea. A nova denominação ficou em segredo entre os dirigentes comunistas kampucheanos e a China Popular.
Em 18 de março de 1970, um Golpe patrocinado pelos Estados Unidos derruba o Governo do príncipe Sihanouk e uma Junta Militar (liderada por Lon Nol) assume o poder. A União Soviética imediatamente reconhece o novo Governo. Antes desse Golpe, os Estados Unidos – que estavam massacrando os vietnamitas numa Guerra assassina – já entravam em território cambojano para combater as tropas do Vietnã do Norte.
 
Os milhões de mortos cambojanos
 
A justificativa para a invasão do Kampuchea em 1979 pelos invasores vietnamitas foi o “genocídio promovido pelos khmers vermelhos”. Esta falsificação histórica é mais uma das muitas que pontuam a história escrita pela burguesia para tentar manchar as revoluções populares e socialistas ao longo do tempo. Desde 1871 (com a Comuna de Paris) que a burguesia calunia socialistas e comunistas e lhes pinta de assassinos e genocidas, quando – na verdade - os assassinos e genocidas da humanidade ao longo do tempo são as classes dominantes. Nestas contas absurdas, feitas muitas vezes em redações de jornais da burguesia, Lênin e Stálin “mataram” 70 milhões e Mao ultrapassou a casa dos 100 milhões. Cifras absurdas que deixam os mais atentos desconfiados. No caso da União Soviética até hoje se propaga a farsa dos “milhões de soviéticos mortos por Stálin”. Tudo não passa de uma mera visão reduzida da História e uma maneira de manipular as massas através da contrapropaganda e colocá-las contra o socialismo.
No Camboja, esta matança realmente existiu, e foram – provavelmente – mais de 1 milhão de cambojanos assassinados. No entanto, os assassinos não foram camponeses pobres que empunham fuzis e viviam com econômicas rações de arroz para sobreviver e uma vida de total entrega à causa revolucionária. Os assassinos do povo cambojano (a maioria camponeses e trabalhadores pobres) foram os agressores ianques. O Camboja foi – até hoje – o país mais bombardeado da História. Estes criminosos bombardeios, falsamente justificados para conter o avanço das tropas do Vietnã do Norte que atravessavam a fronteira cambojana, tiveram início em 18 de março de 1969. Esta primeira fase de agressão matou cerca de 1 milhão de cambojanos (a maioria mulheres e crianças) e deixou mais de dois milhões de cambojanos refugiados (muitos desses morreram em consequências da fome e de sequelas das bombas jogadas pelos assassinos ianques).
Ainda em 1969, antes da derrubada do Governo Sihanouk e mesmo com sérias divergências pelo caráter burguês do príncipe, o PTK inicia conversações com forças antiimperialistas e funda a Frente Nacional de Libertação (liderada por Kieu Shampan e Pol Pot, do PTK e pelo príncipe Sinahouk que após o Golpe passa a viver na China e auxilia a guerra popular agindo como relações exteriores, conseguindo recursos e armas para o movimento).
Durante os anos de luta guerrilheira, Kieu Shampan organiza uma Conferência com os partidos comunistas do Laos, Vietnã do Norte, FLN do Vietnã do Sul (vietcongs) e FNL do Camboja. Nesta Conferência é denunciado o genocídio cometido pelos ianques contra o povo cambojano. É daí que os inimigos do socialismo se apoderaram das informações sobre o assassino em massa e mudam as autorias dos crimes, passando a culpar membros do PTK. A falsificação histórica estava feita. A partir dessa Conferência o Ocidente passa a atribuir ao “assassino Pol Pot” os mais de “três milhões de mortos” do Camboja. Essa versão fantasiosa ganhou popularidade após o livro-reportagem do jornalista ianque (do The New York Times) Sidney Schanberg. O livro A Morte e Vida de Dith Pran, baseado em depoimentos de seu amigo e médico cambojano Dith Pran. Um depoimento um tanto suspeito, já que o médico consegue “fugir” do Kampuchea e chegar aos Estados Unidos onde seria um famoso repórter do TNYT. Hoje é um dos ativistas mais anticomunistas que existem e faz palestras para relembrar o “genocídio cometido pelos marxistas cambojanos”. Pran não passa de um agente muito bem pago (diga-se de passagem) pelo imperialismo norte-americano.
Os revolucionários da FNL chegam a Phnom Penh em 17 de abril de 1975 e o Exército do Governo títere de Lon Nol se rende. Antes de deixar a capital, as forças anticomunistas e revisionistas destroem documentos que comprovam mais crimes contra o povo cambojano cometidos por Lon Nol e pelos Estados Unidos, crimes silenciados pelos embaixadores da União Soviética e da RDA.
É fundada a República Democrática do Kampuchea.
 
Uma revolução profunda e original
 
Muitos marxistas-leninistas, ainda hoje, não tem boa vontade em compreender a experiência socialista do Kampuchea Democrático. Ignoram os aspectos culturais, sociais e econômicos e – principalmente - o contexto histórico da luta antiimperialista e socialista liderada pelo Partido Comunista do Kampuchea. A decisão do PCK foi de total independência e se posicionou contra qualquer forma de copiar modelos de outras experiências revolucionárias e também de não depender somente da ajuda estrangeira era uma das regras da direção comunista. Tinham, é fato, se baseado na forma de luta da guerra popular, mas, sem deixar de lado as características particulares do Camboja.
As decisões que causam certos preconceitos (mesmo entre marxistas-leninistas) são profundas e radicais, como por exemplo, a abolição do dinheiro (aliás, um fetiche segundo Marx) e o deslocamento da maioria da população urbana para o campo. No caso desta última medida, o novo Governo de construção socialista não tinha condições materiais para – de imediato – reconstruir as cidades que foram duramente bombardeadas pelos norte-americanos e decidiu que a maioria do povo seria deslocado para regiões rurais onde poderiam ter mais segurança no caso de novos ataques ianques. Em 1975, mesmo com o fim da Guerra do Vietnã, quem garantia que os Estados Unidos não voltariam a atacar a região utilizando inclusive artefatos nucleares? Este era o temor da liderança comunista. Em 1978 o jornal sueco Dagem Nyveter, em uma longa reportagem, afirmou que “em apenas três anos após o fim da guerra, a nação estava se alimentando e exportando o excedente de arroz”. Assim, o plano de reconstruir o país arrasado pelas bombas norte-americanas estava dando certo e o país já se recuperava da fome que o povo cambojano foi submetido desde o início das agressões do imperialismo. Na questão da abolição do dinheiro, foram criados bônus que correspondiam ao tempo de trabalho realizado para trocas de víveres, serviços e vestimentas nas cooperativas estatais. Também foram construídas milhares de novas habitações para o povo, confortáveis, diferentes das antigas construções cobertas de palha.
Outro interessante depoimento é do jornalista norte-americano Malcom Caldwell que esteve no país em dezembro de 1978 e, após investigar pessoalmente a experiência socialista kampucheana, teceu vários elogios sobre o que se passava de fato lá.  Misteriosamente, este jornalista foi assassinado por agentes ligados ao Vietnã (consequentemente ligados à agentes soviéticos). O jornalista foi testemunha da experiência totalmente nova que estava sendo posta em prática naquele momento.
 
A invasão vietnamita
O Vietnã, após a independência da Indochina, se achou no direito de ser o legitimo herdeiro da colônia francesa e passou a provocar atritos de fronteiras com o Camboja. Quando o PCK conseguiu formar o Governo revolucionário, a independência e a decisão dos dirigentes do Kampuchea Democrático em não aceitar intervenções e modelos impostos por outras nações socialistas causou um mal estar no Vietnã Socialista. É bom destacar que neste período, 1975, as tensões entre URSS e China Popular ainda eram altas. O socialismo na URSS estava atravessando uma profunda crise (econômica e ideológica), instalada após a subida ao poder do revisionista e quinta-coluna Nikita Kruschev e agravada com a chegada do também revisionista Leonid Brejnev. A China, com Mao ainda no Poder, apoiava a luta khmer e oferecia ajuda militar aos kampucheanos para resistir. Mesmo com todas as dificuldades de um país atrasado economicamente e arrasado pelas milhões de bombas imperialistas jogadas em seu território o povo kampucheano em sua imensa maioria apoiava o novo regime.
Em fins de 1978 o Vietnã patrocinou a criação de um movimento de “resistência”, a Frente de Libertação Nacional. Na verdade, esta “resistência” ao PCK era formada por agentes de Hanói com ajuda da URSS e da República Democrática Alemã. A invasão ao território kampucheano, após meses de provocação nas fronteiras Kampuchea/Vietnã, se deu em 1º de janeiro de 1979. A máquina de Guerra vietnamita – com tanques soviéticos de última geração e caças Mig 21 (também de fabricação soviética) – não permite ao pequeno e ainda mal equipado Exército Revolucionário do Kampuchea (ERK) uma resistência efetiva. Sete dias após o início da invasão vietnamita, a capital Phnom Penh cai e o ERK (juntamente com o PCK) decide recomeçar uma guerra popular e formar colunas guerrilheiras em regiões montanhosas na fronteira com a Tailândia. O Vietnã cria uma República Popular do Camboja e forma um fictício “Partido Comunista do Camboja”. O país passa a ser dirigido por um ex-dirigente do PCK, Heng Samrin (ex-oficial de baixa patente do ERK). 200 mil soldados vietnamitas passam a ocupar oficialmente o Camboja.
Um depoimento esclarecedor sobre essa invasão e sobre os progressos atingidos pelo Governo do PCK foi dado pelo jornalista sueco Jan Myrdal. Myrdal, em seu livro “Kampuchea, 1979”, descreve o fim da fome no país, a reconstrução das ferrovias, o reparo nas comunicações (principalmente telefonia) e a construção de milhares de casas para a população que antes vivia em choupanas. O jornalista também fala das escolas que visitou e os vários livros que viu publicados no país. Segundo Myrdal, qualquer um podia ver esse progresso.
Em 1980, as forças anti-vietnamitas se unificaram e formaram um Governo tripartite com Sihanouk presidente e Kieu Samphan como vice. Esse Governo funcionava desde a China (onde Sihanouk vivia exilado). A luta durou até a queda do Governo títere vietnamita em 1989. O país muda de nome mais uma vez em 1993 e restaura a monarquia com a volta de Sihanouk ao poder (que abdica e passa a seu filho a liderança). O PCK ainda lutava por volta de meados dos anos de 1990, no entanto, debilitado e perseguido, Pol Pot é encontrado morto em sua modesta residência no campo após ser preso pelos próprios companheiros.
A desinformação sobre a experiência socialista no Kampuchea Democrático ainda é grande. A intelectualidade burguesa exerce uma força gigantesca e influencia setores da esquerda (muitos marxistas-leninistas inclusive) no sentido de caluniar Pol Pot e fazer dele um monstro. Erros foram cometidos, sem nenhuma dúvida, mas, não na dimensão que querem fazer crer os hipócritas e verdadeiros criminosos que diariamente caluniam sobre o movimento comunista. Chegará o dia em que a verdade será mostrada às massas e todos estes caluniadores a serviço da burguesia serão julgados pelo povo.
 
Referências:
Chomsky, Noam e Herman, Edward S. Os guardiões da liberdade. Grijalbo Mondadori.
Kampuchea democrática (em www.maoistasbolivianos.blogspot.com.br).
Enciclopédia Barsa Universal, Volume 4, Editora Planeta, 2009.

3 comentarios:

pedro palo dijo...

Compañeros DAZIBAO ROJO, gacias por esta publicacion, seria bueno en español, para que mas personas aqui participe en la discusion de este material.

dazibao rojo dijo...

Apreciado camarada:
Gracias por tu comentario. Siguiendo tu propuesta ya estamos trabajando en la traducción al castellano de este magnifico articulo.
Saludos rojos:
DR-redacción.

pedro palo dijo...

"Somos despiadados y no os pedimos clemencia. Cuando nos llegue el turno no ocultaremos nuestro terrorismo. En cambio, los terroristas reales, los terroristas por gracia de Dios y de la ley, son brutales, despreciables y vulgares en la practica, cobardes, mezquinos y traidores en teoria, y tanto en la practica como en la teoria no tienen honor¨.Marx.
Esto es lo que hay que hacer practicar el comunismo y jamas hacerlo de palabra. Vietnam dio la mas alta y preciosa accion ejemplarizante. Los barremos o nos barren no hay termino medio (Presidente Gonzalo). Rios de sangre ha generado el fascismo para garantizar su poder. No tienen piedad, son macabros, son tigres de verdad, solo que ante las masas son tigres de papel, la guerra popular en Vietnam lo comprobo, La revolucion China lo Comprobo, etc. Exterminar al imperialismo no es tumbar sus avisos, es exterminarle todas sus manifestaciones y en los pueblos se ha enraizado sus negros intereses, asi que las revoluciones pasaran por grandes presupuestos de sangre y ello no debe de asustarnos una manera de entender el compromiso de comunistas de que salvo el poder todo lo demas es ilusion(Lenin).